15 de abr. de 2026

Raízes em movimento

Há tempos sinto vontade de reencontrar-me com meu passado, minha essência, meu lado interiorano. Flashs de minha infância têm sido presentes, levando-me à casa de minha tia e de meus avós, como, por exemplo, a primeira vez em que experimentei a maçã caramelada comprada por minha tia no circo do centro da cidade, enquanto ela atentamente observava meu primeiro contato com aquele açúcar cristalizado, de cor vermelho-rubra hipnotizante.


Recordo-me de sua demonstração ao me ensinar como mover o maxilar para romper a crosta translúcida que cobria o amor,  nome dado àquele doce: maçã do amor.


Pela narrativa dessas lembranças e pela oportunidade de conhecer esse infinito particular, no interior do Sul do país, cidade natal do Cris, Santa Maria, não titubeei em ratificar a oportunidade de ir. Não seria apenas a chance de conhecer um pouco mais sobre ele e os seus, mas também de apresentar à minha criança interiorana outros sabores e saberes.


Poder atravessar a cidade grande rumo ao interior, deleitando-me com a paisagem dos pampas, com seu mar verde emoldurado por plantações, vez ou outra por palmeiras, casebres abandonados e horizontes sem fim.


No atual destino, neste percurso, lembro-me do quanto ainda tenho a conhecer deste país, de paisagens tão lindas e tão diversas, ao mesmo tempo em que percebo que tenho menos tempo do que outrora para desbravar tamanha infinitude.


Hoje, a lembrança do passado está mais exacerbada; insiste em fazer um paralelo com a paisagem que atravessa minha vista liberta, dentro deste corpo preso ao transporte que me leva ao destino desta viagem ao interior de Santa Maria, à história do Cris e, inevitavelmente, à minha também.


Ir ao encontro dessa intimidade tem sido um deleite para a alma de ambos. Em nossas histórias de vida, reencontrar as origens faz bem a todos: regenera a alma, faz-nos realinhar a rota da vida, seja qual for o tempo que ainda tenhamos para caminhar.


A viagem continua, e a paisagem se mostra diferente e exuberante a cada metro percorrido. Os pensamentos continuam a se misturar; a vontade é que todo esse burilamento não se acabe, mesmo quando o ponto final chegue.


Espero que a cidade resgate lembranças de família, de infância, mas que também nos reafirme o quanto somos abençoados por poder voltar sempre ao ponto de partida, seja presencialmente ou simplesmente fechando os olhos e permitindo sentir o cheiro, a voz, o som de quem nos deu a dádiva de nos tornarmos o que somos hoje.


Que possamos lembrar de caminhar pela vida na certeza de estar na companhia de todos os que são parte de nós; de que somos e estamos sempre conectados às nossas raízes mais profundas.


Gilberto Salles 

7 de abr. de 2025

Abril

Abri-me, sempre, ao mundo, para que eu o contemple com olhos vivos.

É mês de gratidão: pela pausa, pela possibilidade de reconexão às origens e ao presente-futuro.

Abril é mês de presente mútuo. Ao amor, agradeço-lhe a companhia. E ele, meu amor, retribui-me com votos de eternidade.

Nessa congratulação íntima, planejamos o porvir: no próximo Abril, onde estaremos? Como seremos?

Abril, fogo místico, arianamente intenso.  Eu, puro terra, analítico, crítico, prático, agostiniano-virginiano raiz, em combustão com essa energia escancarada, disruptiva, egocentrada, elevei-me da fixação do meu solo e pude, enfim, ver a vida por outro prisma.

Hemisfério sul: outono. Do outro lado: primavera 

É entre esses contrapontos que se faz a travessia. Com o Atlântico abaixo de mim, viajo, corpo no ar, pensamento solto, acima das nuvens, onde o tempo suspende e os sonhos se revelam. Lá do alto, contemplo o horizonte, onde céu e mar, quase, se tocam.

Ah, Abril…seja sempre gentil comigo.

Agradeço-te pela generosidade e pela parceria.

Que possamos, juntos, brindar, em algum lugar do mundo, pela vida, pelo amor e pelo momento presente.

Gilberto Salles 

31 de jan. de 2025

Mudar é viver

Desde a infância, aprende-se que a mudança é parte essencial da vida.

Muda-se o corpo, a voz, os cabelos; muda-se a casa, o trabalho, os amigos, a cidade.


A transformação do comportamento também faz parte desse fluxo. Mudar é uma constante, e, junto à maturidade, torna-se onipresente.


Esse tema já ecoou entre filósofos e escritores. Buda disse: “A única constante na vida é a mudança.” Tolstói, por sua vez, refletiu: “Todos pensam em mudar o mundo, mas ninguém pensa em mudar a si próprio.” Mas é em Heráclito que encontro a definição que mais me toca: “O mundo é um eterno devir.” Há uma mudança incessante, imprevisível, que define a própria natureza da existência.


E assim percebo minhas próprias transformações. Hoje, prefiro a casa à rua e aos bares. Priorizo encontros íntimos, mas celebrar a sexta-feira à noite, com um bom vinho e a companhia de quem amo, tornou-se a verdadeira festa.


Acordar cedo no fim de semana, preparar o café, contemplar o presente, observar cada detalhe da casa e a história que ela carrega — essa tem sido a melhor escolha.


A mudança também se revela em outro aspecto: as viagens. Houve um tempo em que viajar significava explorar sem descanso, passar os dias flanando pela cidade, provar cada prato típico, riscar o máximo de pontos turísticos da lista. Dormir pouco era regra. Hoje, tudo isso passou.


De todas as minhas mudanças, esta é a mais silenciosa e contemplativa. Chega sem alarde, lapidando preferências, tornando o simples grandioso.


E assim seguimos, mudando e nos refazendo. Para melhor ou pior? A resposta é única para cada um. Entre subidas e descidas, uma certeza permanece: somos parte do todo em transformação.


Viver é mudar. Ou, se preferir, mudar é viver.


Gilberto Salles Jr

23 de jan. de 2025

Canta, canta, sabiá

Canta, canta, sabiá,

Seu canto doce

Vem me despertar.


Canta, canta, sabiá,

No desjejum da manhã,

Estou aqui

A te escutar.


Canta, canta, sabiá,

Traz a esperança 

Para o meu dia

A iniciar. 


Canta, canta, sabiá,

Eu passaria o dia inteiro

Só a contemplar.


Canta, canta, sabiá,

Seu som é luz,

É vida,

É um novo dia

A se revelar.


Gilberto Salles Jr

20 de jan. de 2025

Cinco: A travessia do tempo

Misticamente, confiei ao número 13 e ao 7 o papel de meus amuletos de sorte. Era neles que depositava a esperança material e a magia espiritual. 

Mas o número 5, sempre ele, teimava em atravessar o caminho. Tentava ignorá-lo, fingia que não o via, mas o 5 jamais se permitia ser esquecido. Enquanto eu me abraçava ao 13 e ao 7, ele sussurrava ao pé do meu ouvido:

“Estou aqui. Dê-me a mão.”

Como confiar minha sorte àquele que, com a mesma mão que acaricia, golpeia?

Mas ele, impassível, devolve-me em sussurros:

“Bater também é cuidar. Para se levantar, é preciso cair. Perder ensina a ganhar.”

Pondero… Mas por que os empurrões e os afagos têm pesos tão díspares?

“Pegue leve,” digo-lhe em silêncio.

E o 5 responde, sereno, com o peso das eras:

“Será que fui tão cruel quanto pensas? Vamos, revisite o caminho comigo.”

1975 — Chegas ao mundo.

1985 — A rejeição toma forma; a rua te mostra a face crua do preconceito.

1995 — A liberdade sorri; viajas sozinho, sem amarras, sem relógios, apenas descobertas.

2005 — A queda é profunda: a casa se desfaz, o amor se despedaça. Aprendes o peso da dor e a força de se reerguer.

2015 — A morte te encara de perto; lágrimas são o pão diário, mas a vida insiste: “Continue.”

2025 — 50 anos despontam no horizonte. Saúde. Esperança. Oportunidade. Amor próprio.

Revivo cada passo, e onde habitava sombra, agora há leveza. Reconheço-me mais inteiro.

O 5, com sua voz velada, ressurge:

“Será que ainda me julgas um impostor?”

Não me deixa responder. Relembra:

“Nos compassos dos 5, a ciranda dos teus é dançada. Seguram tuas mãos, partilham teus sonhos. Teus pais vieram sob minha unidade: dia 15, tua mãe; dia 25, teu pai.

E foi no 5º andar, na 115 Sul, que estreitaram laços e prometeram seguir unidos por toda eternidade”

Rendo-me, enfim. Não, 5, ainda não te chamo de sorte, mas não ouso mais negar-te. Reconheço-te em cada dobra do tempo, em cada dor que ensinou e em cada afago que curou.

Só te peço:

“Sejas mais brando daqui para frente. O caminho que resta é breve, e meus passos já não têm a pressa da juventude.”

Ele ri, com a malícia de quem sabe ser implacável:

“Não posso prometer mansidão. Minha imparcialidade é não ser cúmplice nem algoz. Mas farei o possível, entre quedas e carícias, entre calmaria e tempestades, ser um pouco mais leve.”


Gilberto Salles

17 de jan. de 2025

O tempo



Nem mesmo a fugacidade desta década foi capaz de amenizar a vastidão dos dez anos sem sua presença. O tempo passou, mas a ausência se enraizou — profunda, teimosa, sempre viva.

O cotidiano, com suas artimanhas sutis e certeiras, nunca me permite esquecer. Está no cheiro do café da manhã que evoca memórias antigas; na playlist que toca aquelas músicas que você gostava. Está na colher de metal  da sua cozinha — a única que escolhi guardar, tentando, quem sabe, capturar o segredo do seu tempero. Está no reflexo que vejo no espelho do banheiro, em cada traço que, com o tempo, herdei de você. Tudo tem você. Tudo é você.

Escrevo para reafirmar: estamos aqui, com você e meu pai sempre dentro de nós. Partilhamos suas histórias com os amigos novos e rimos alto com aqueles que tiveram o privilégio de conviver com vocês. A saudade é parte de nós, uma companheira que não pede licença.

Estamos bem — como você gostaria que estivéssemos. Seus netos cresceram, cada um agora no seu canto do mundo, mas os destinos os levaram de volta às cidades dos pais. Babi está no Rio de Janeiro, Tarik em Belo Horizonte, e Kaká, com seus 14 anos e a ousadia que sempre o marcou, parte este mês para Uberlândia, onde jogará vôlei profissionalmente. Sabrina e Jef se dedicam à labuta de serem pais de três filhos que se aventuram no início da vida adulta. Com paciência e amor, soltam as mãos deles pouco a pouco, guiando-os para o pouso em terra firme, sempre vigilantes, sempre cheios de ternura.

Marcelo, por fim, aposentou-se. Resolveu fincar raízes no campo, uma casa nova para chamar de lar, uma morada que, sei, você e meu pai também chamariam de linda. Ele e Francisco já estão de mudança, aninhando-se na simplicidade que os abraça agora.

Quanto a mim e Cris, seguimos de mãos dadas. Às vezes, minha velha impulsividade tenta me fazer buscar agulhas em palheiros inexistentes, mas o amor sempre me faz repousar. Continuo o virginiano que tudo vê e tudo ouve — o irmão atento, o tio cuidadoso, chato para eles, o defensor nato. Hoje, em silêncio, os respeito em suas dores e alegrias, porque aprendi a respeitar as nuances de ser parte de uma família e respeitar o momento de cada um. Mas se precisar, não hesito: o velho Juninho ainda está aqui, com as armas prontas, sempre disposto a proteger os seus.

A vida segue seu curso, mas você permanece. Em cada canto. Em cada suspiro. No amor que não conhece tempo.

Amo-te, 

Feliz aniversario, Mãe🤍


* Hoje, 15/01,  Maria da Penha Garcia Salles completaria 78 anos. 

* Em fevereiro, faz 10 anos de sua passagem. 

* Em junho, faz 11 anos da passagem de Gilberto Salles, pai.

24 de dez. de 2024

Feliz Natal

Na simplicidade

que se pede 

na celebração 

de hoje 

re nasço

ao nascimento 

mais célebre

do mundo


na confraternização

da vida 

da famîlia

re novo

junto aos meus

à comunhão 


na fraternização 

do amor

glorificado hoje

para todos  

os outros dias

caminho

em harmonia 


na confraternização 

dos povos

na esperança 

pela paz 

universal

re afirmada

neste dia


sigo

crendo

na fé

e na união 

das famílias

ofertando

a todos 

o melhor

de mim


Feliz Natal! 

19 de fev. de 2019

Momentos Eternizados

Bom dia. Acordou agora? Que vozinha de sono!
A Zélia já chegou? Peça a ela para limpar os interruptores. O que teremos para o almoço? Estou com uma vontade de comer o seu filé à parmegiana.
As dores das pernas diminuíram? A Senhora é terrível, não vai ao médico de jeito nenhum!
Diariamente, as mesmas frases, as mesmas respostas, as mesmas cobranças.
Os mesmos horários, três vezes ao dia, duas ligações feitas do trabalho e a outra realizada no intervalo da novela das 21h.
Nos dias tranquilos, as risadas são as melhores, nos estressados ela é só silêncio, ao final da cartase a doce resposta: - “meu filho acalme-se, você ainda terá um enfarto, tão novo e já assim?!”
Faça o que eu falo, vocês não me escutam! A rispidez da intolerância é só para proteger, para salvar, essa é a única intensão.
Não importa a meteorologia, domingo a mesa é posta para a reunião familiar e amigos ou a quem queira chegar.
 Não vem? Poxa, fiz tanta comida! Você não veio semana passada também.
Está tudo bem com vocês? Como está o Cris, meu loirinho? Você não anda deixando ele agitado, não é?
Estou pensando em ir ao Cruzeiro do Roberto Carlos.
Vá sim, mãe, você vai adorar!
Não quero ir sozinha, quer ir comigo?
Não posso agora.
Comprei presentes para as crianças.
Novamente, “Dona Penha”? Vou amarrar suas mãos, sai da internet.
Meu computador está péssimo, está travando, vou ligar para o técnico.
Boa noite, fofo! Durma com Deus.
Você também mãe, durma com ele.
Vá deitar, não fume; ouviu, minha gordinha!
Ô menino chato...humm. Tchau.
Hoje as conversas são silenciosas, em forma de oração, ligada pelo coração.
O telefone calou-se; a casa está vazia.
A cabeça tenta alcançar os detalhes, a lembrança é dolorosa, o corpo dói.
A voz, o cheiro, a presença ainda são fortes.
Momentos cotidianos.
Momentos bons.
Momentos eternizados.


Gilberto Salles Jr

23 de set. de 2018

O Portal

De A a Z o alfabeto está completo, a macacada está reunida.
Desde sempre, encontram-se para rir, sambar, tocar, beber e levantar bandeira, neste quesito somos os melhores.
Se precisar há advogados, artistas - dos bons -, dentista, chef de cozinha, músicos, DJs, cartomantes, macumbeiros, católicos, gays, héteros, mães, simpatizantes, a lista é infinita.
Aqui, como já disse Martinho da Vila, um de nossos mentores, “todo mundo é bamba, todo mundo bebe, todo mundo samba, tem galinha preta, azeite de dendê e até canjica pra comer”. Aqui temos AXÉ. Saravá! 
Há plano piloto, satélites, interestadual e até internacional. 
Pode faltar tudo entre nós, dinheiro, sexo (acontece... rsss), até a saúde (Deus nos livre - faça um sinal da cruz) ou qualquer porra dessa, dificuldade sempre aparece quando menos esperamos. Mas não pode faltar o amor, o carinho, o afeto, a mão estendida e, principalmente, aquele olhar sincero do amigo-irmão, o qual  sabemos bem como é. A tecnologia dá aquela força na distância física. Santa internet!
Assim, tem sido anos após anos, cumprimos sabiamente a cartilha da amizade-sincera.
Nossa amizade transcende o físico, aqui peço um minuto de silêncio aos nossos queridos e amados, os quais estarão sempre encruados em nossos cognitivos,  que  conosco brincou, bebeu (e muito!), fizeram muita merda, fazemos merda siimm, somos desses.
Cada encontro é um portal que nos leva ao passado e nos deixa mais forte no presente. E o futuro, ahh, o futuro que se foda! Está tão bom o aqui e o agora.
Deixa a cerva gelada descer, a memória trabalhar e a lembrança aflorar.   
Abra os sentidos permita-se ir à new aquarius, com o seu gim barato e aguado, a escada sinistramente inclinada, o porteiro grosseiro, as travas e suas apresentações bizarras e corajosas, aos carnavais na w3, no eixão, às noites no beirute, no Atlas, no Bizarre, na T99...
Tenho pena daqueles que dizem estarmos parado no tempo. 
Queria eu que este portal aberto nos prendesse para sempre lá, na Terra do nosso nunca: nunca tristeza, nunca medo, nunca preconceito, nunca o dia seguinte de ontem. Sempre vivemos intensamente. 
Gostamos mesmo dos que têm fome, dos que morrem de desejo, dos que ardem, como Adriana Calcanhoto. 
Vamos aproveitar o momento, cada segundo entre nós, sairemos somente quando a última luz acender para nos lembrar de que temos de retornar ao futuro-presente, não cederemos facilmente, unidos, lutemos para continuar no passado-presente para que não nos leve até ao portal da saída. Vamos dar as mãos, mostremos nossa resistência, e se involuntariamente sairmos, sairemos entrelaçados para não nos perdermos no caminho, vamos cantando, cantando bem alto, registrando nossa indignação, queremos ficar aqui, entre lá e cá, para sempre: “pode passar o rodo e me mandar embora que vou ficar dançando lá do lado de fora, pode passar o rodo e me mandar embora que vou ficar dançando lá do lado de fora... sai, sai do meu caminho...” 

Gilberto Salles Junior

31 de ago. de 2018

Viajar é preciso


 Ao sobrevoar as cordilheiras dos Andes, minutos antes de aterrissar no aeroporto internacional do Chile, fui tomando por uma profunda emoção.

Não sei dizer ao certo se deu por um motivo específico ou pela simultaneidade de sentimentos aflorados naquele instante, 25 de agosto de 2018, aniversário do meu pai, véspera do meu, em que estava a sobrevoar as cordilheiras, pelas quais fiquei maravilhado e grato por estar ali, na minha pequinês, a observar aquela plenitude da mãe natureza.

Ali, recordei do meu pai, dos meus pais, dos sonhos de criança, da adolescência, das conversas em família, dos amigos, das minhas crenças, bem como das promessas não cumpridas, das viagens prometidas tão sonhadas em família, e, consequentemente, lembrei da finitude dos momentos como, por exemplo, do abraço afetuoso que não pudera dar ao aniversariante do dia.

 Reflexivamente, tornei a me perguntar: “se eu desencarnasse hoje o que deixaria de legado como ser humano? O que fiz de bem ao próximo?

Em meio a essa ponderação e àquela contemplação da paisagem exuberante a qual eu sobrevoava, o piloto, da cabine, cumprimentou a todos e, surpreendentemente, verbalizou: “hoje, comemoro 12 anos de profissão e sempre trabalhando nesta companhia - Aerolíneas Argentinas - aproveito o momento para agradecer a oportunidade de poder fazer o que amo, voar, e, diante desta vista - das Cordilheiras dos Andes – por onde tive o privilégio de sobrevoar por tantos anos, agradeço a Deus por pelo meu trabalho”, prossegue: “Minha equipe, sou grato e orgulhoso de trabalhar com vocês.” Após uma rápida pausa, recomposto da emoção, ele continua: “Aproveito e digo a todo vocês, meus amigos, há anos sobrevoo esta cordilheira e, por isso, afirmo que ela já não é mais a mesma, ressalto a importância de cuidarmos do planeta, como podem ver, há grandes espaços descongelados nestas Cordilheiras, isso é o resultado negativo do aquecimento global, ou seja, não é mais uma questão de precaução mas sim de emergência, cuidemos do que é nosso, precisamos viver em harmonia com a natureza.

Diante de tudo que foi dito, envolto a minha introspecção, percebi o quanto o momento era sublime, visto que não era o único a burilar, entre as nuvens, diante da grandiosidade da natureza, pois era impossível ficar inerte durante aquela imensidão.

Assim, em forma de oração agradeci a Deus por tudo, pois imaginar estar ali, sobrevoando as Cordilheiras, há poucos anos, era um sonho impossível de se realizar.

Por um instante lembrei de alguns Países e cidades mundo afora, os quais tive a oportunidade de conhecer e, silenciosamente, gratulei ao universo por ser tão generoso comigo.

Reverberei: viajar é preciso e todos devem ter a oportunidade de conhecer outros países e descobrir o quanto somos pequenos diante da natureza, das cores, dos sons e dos sabores que há no mundo.

Não somos nada, não sabemos tudo, nem tão pouco exploraremos, por mais dinheiro que se possa ter, todo este imenso universo chamado Terra.

Viajar minimiza a soberbia e maximiza a solidariedade, ao menos, aos olhos daqueles que têm como intuito conhecer o mundo para se autoconhecer, rever os seus conceitos e o seu papel como cidadão do mundo, atualmente tão globalizado.

Clicks, posts, selfs são tão bem-vindos quanto uma conversa informal com um desconhecido da mesa ao lado no bar, da troca de experiência cultural, da oportunidade de novos amigos, da aprendizagem do idioma local e até das dicas de cuidados ao passear pela cidade.

Atravessar continentes, desfrutar de diferentes estações climáticas, banhar em novos oceanos, tudo isso só vale a pena se houver alguma transformação interna, se isso bagunçar, no melhor sentindo da palavra, as suas estruturas.

Ao desembarcar no aeroporto do Chile e entrar na fila para imigração, continuo em reflexão e agradecimento, e enquanto espero minha vez, em oração, peço licença para entrar no País, rito ensinado pela minha ancestralidade, de que se deve pedir licença ao entrar e ao sair na casa dos outros.

De repente chega a minha vez de passar pela imigração, acende o número “16” do letreiro, sigo até ao agente da cabine:


- Buenos días, su pasaporte, por favor?
- Sí.
- ¿Quienes viene a hacer aquí?
- Conocer su país, estoy de vacaciones!
- ¡sea bienvenido!
- muchas gracias y con licencia.

Autorizado, faço um sinal da cruz, piso com o pé direito e sigo rumo ao táxi.


Gilberto Salles Jr


3 de out. de 2016

Cotidiano

Nossa, calor do inferno. 
Sol? não! Cadê a chuva, o dia nublado, as nuvens pesadas?
Porra! Chega para lá. 
Cadê meu café? 
Jujuba, você comeu? tomou água? Gaaaata, sujou o chão todo com a areia da caixa sanitária.
Quando vai aprender tapar suas merdas com a areia sem jogar tudo para fora, no chão.
- amor? 
Quero pão com café.
- amor?
Amanhã já é segunda-feira, que porra!
- amor?
Leva meu carro para lavar.
- amor, é a terceira vez que o chamo, pode olhar para mim um pouco? 
Desliga esse rádio, sabe que odeio esta música.
- amor?
Não, não acredito, cadê o abacaxi, falei várias vezes que não era para esquecer. Tá difícil demais. Ah, que saco!
 - amor, amorzinho? 
A porta da cozinha bate.
O chuveiro é aberto.
Um silêncio invade o ambiente. 
Somente o olhar atento da felina, persa, acompanha o seu dono se movimentar embaixo d'água enquanto o blindex não fica todo embaçado.
A porta da cozinha bate novamente.
- amor? amor?
- trouxe o abacaxi, o café está pronto. 
- o pão está quentinho.
- o dia está lindo lá fora!
- vamos andar um pouquinho depois de tomar o café?
- vamos aproveitar o domingo!
- amanhã, graças a Deus, é segunda-feira, uma nova semana, novas oportunidades!
- como gosto disso tudo.

Sem dar uma resposta, ouve-se o girar do registro do chuveiro, sendo paulatinamente desligado.
A gata corre do tapete do banheiro, no intuito de avisar que o banho acabou.
O blindex se abre.
A toalha branca é retirada do suporte.
- amor? Ouviu o que eu disse?
Nenhuma resposta.
- amor? o café está pronto, o abacaxi já está descascado e fatiado, guardado no tapoer.
- venha logo, esquentarei o pão, deve ter esfriado um pouquinho.

A gata visivelmente agitada percorrer pela cozinha. Os olhos parecem querer saltar da cara achatada. Rabo entre as pernas. 
- viu fantasma, jujuba? que cara é esta?
- bom dia, meu amor.
- tomou um banhozinho?
O silêncio perdura.
Escuta-se o caminhar em direção à cozinha, um pigarro é solto na tentativa de quebrar o silêncio.
A gata parece petrificar-se e, inacreditavelmente, consegue arregalar ainda mais os olhos.
Os olhares se perpassam em segundos, um irradiante de amor e alegria, o outro carente, chateado, infantil.
O cheiro do café serve de pretexto para uma nova tentativa de harmonizar o clima
 - um cafezinho quentinho agora, o cheiro está ótimo? 
Quero.
- e o pão, quer com queijo?
Quero.
A segunda resposta surge em tom melancólico.
O corpo apresenta mais retraído, menos altivo, como se dissesse: abraça-me!
Jujuba sente a possibilidade de reconciliação e começa a diminuir a abertura dos olhos, as pupilas dão sinais de normalidade, o rabo levanta, e, começa a caminhar em direção à porta de correr, da entrada da cozinha, para fazer sua primeira refeição do dia.
O rádio é ligado.
As mãos se tocam no repassar da bandeja, carinhosamente posta, pão com queijo brie, frutas, café e uma florzinha amarela retirada do jardim no caminho à padaria. 
Senta-se no sofá da sala para tomar o café enquanto escuta Marilia Mendonça cantar no rádio.
- vamos dar uma voltinha quando acabar o café? 
- o dia está lindo lá fora.
Será? Estou com preguiça.
O Timbre de voz está  mais ameno, como se dissesse: vem cá, amor, abraça-me?
- vamos! vamos comigo, fazer uma caminhada.
A face do rosto agora é infantil e indefesa, sinais de carência. 
Jujuba chega perto, roçando entre as pernas, era possível traduzir de seu miado o refrão da música: “bandeira branca, amor. Não posso mais. Pela saudade que me invade eu peço paz".
 - seu tênis está aqui.
Vou, será?
 - sim, deixa a louça na pia da cozinha, depois lavamos.
Uma das mãos se entrelaçam de verdade agora. Um empurrão ajuda tirá-lo do sofá, com a outra mão segura a bandeja com as migalhas de pão, percebe que a xícara está quase sem borra, nem se tivesse o dom de lê-la conseguiria ver o futuro, muito menos entender o presente. A flor, com seu amarelo intenso, continua a espalhar seu perfume, o qual parece mais intenso no momento. 
Volta para o sofá com o tênis na mão e começa a calçá-lo. 
Nossa, nem acredito que estou indo andar neste sol.
- não é você que adora andar ao sol? 
Quando estou animado, sim.
- irá se animar assim que estiver lá embaixo, o dia está lindo, como você.
Um sorriso tímido de contentamento no canto do rosto acompanhado do balançar de cabeça como se dissesse: lindo é você.
As mãos se entrelaçam pela terceira vez nesta manhã e, novamente, um puxão ajuda a levantá-lo do sofá, porém dessa vez os corpos aninham-se tornando-se quase um.
O ritmo das batidas dos corações segue o mesmo compasso.
 Um sussurro: 
Amo-te.
Jujuba mia, como se dissesse: "Graças a Deus!"
- Amo-te muito também.
 - está melhor?
Estou.
- quer falar por que acordou de mau humor, geralmente você acorda tão feliz.
Tive um sonho ruim.
- sonhou o quê?
Que tínhamos separado.
Miaauuu, jujuba mia alto e prolongado, com o Rabinho enroscado entre as pernas dos dois, como se dissesse: "Deus me livre se separarem!"
- Só foi um sonho. 
Outro sussurro: 
Obrigado por me aguentar, me respeitar, me completar.
Não se alterou, não perguntou o porquê de meu stress desnecessário. 
Desceu comprou pão, fez café.
Obrigado por tudo.
Amo-te.
Não quero me desgrudar de você.
- nem eu quero sair de seus braços.
Miaaauuuu, de barriga para cima, com as patinhas para cima, como se dissesse: "amo vocês, façam um carinho em mim também."
O ritmo dos batimentos do coração se descompassam, o calor do lado de fora invadi seus corpos.
Novo sussurro: 
- vamos deixar a corrida para o final da tarde? 
Vamos! 
Abraçados caminhão em direção ao quarto e deixam-se cair na cama. 
Os tênis são jogados longe. 
A música invade o ambiente.
Entre afogos e juras de amor, os corpos se penetram.
Jujuba observa o reinício de um dia e pensa: "ufa! São tão diferentes e tão iguais. Como se completam.  Miauuuu (Bom dia para vocês!)"
- bom dia, amor.
Bom dia, meu amor.

Gilberto Salles