3 de out. de 2016

Cotidiano

Nossa, calor do inferno. 
Sol? não! Cadê a chuva, o dia nublado, as nuvens pesadas?
Porra! Chega para lá. 
Cadê meu café? 
Jujuba, você comeu? tomou água? Gaaaata, sujou o chão todo com a areia da caixa sanitária.
Quando vai aprender tapar suas merdas com a areia sem jogar tudo para fora, no chão.
- amor? 
Quero pão com café.
- amor?
Amanhã já é segunda-feira, que porra!
- amor?
Leva meu carro para lavar.
- amor, é a terceira vez que o chamo, pode olhar para mim um pouco? 
Desliga esse rádio, sabe que odeio esta música.
- amor?
Não, não acredito, cadê o abacaxi, falei várias vezes que não era para esquecer. Tá difícil demais. Ah, que saco!
 - amor, amorzinho? 
A porta da cozinha bate.
O chuveiro é aberto.
Um silêncio invade o ambiente. 
Somente o olhar atento da felina, persa, acompanha o seu dono se movimentar embaixo d'água enquanto o blindex não fica todo embaçado.
A porta da cozinha bate novamente.
- amor? amor?
- trouxe o abacaxi, o café está pronto. 
- o pão está quentinho.
- o dia está lindo lá fora!
- vamos andar um pouquinho depois de tomar o café?
- vamos aproveitar o domingo!
- amanhã, graças a Deus, é segunda-feira, uma nova semana, novas oportunidades!
- como gosto disso tudo.

Sem dar uma resposta, ouve-se o girar do registro do chuveiro, sendo paulatinamente desligado.
A gata corre do tapete do banheiro, no intuito de avisar que o banho acabou.
O blindex se abre.
A toalha branca é retirada do suporte.
- amor? Ouviu o que eu disse?
Nenhuma resposta.
- amor? o café está pronto, o abacaxi já está descascado e fatiado, guardado no tapoer.
- venha logo, esquentarei o pão, deve ter esfriado um pouquinho.

A gata visivelmente agitada percorrer pela cozinha. Os olhos parecem querer saltar da cara achatada. Rabo entre as pernas. 
- viu fantasma, jujuba? que cara é esta?
- bom dia, meu amor.
- tomou um banhozinho?
O silêncio perdura.
Escuta-se o caminhar em direção à cozinha, um pigarro é solto na tentativa de quebrar o silêncio.
A gata parece petrificar-se e, inacreditavelmente, consegue arregalar ainda mais os olhos.
Os olhares se perpassam em segundos, um irradiante de amor e alegria, o outro carente, chateado, infantil.
O cheiro do café serve de pretexto para uma nova tentativa de harmonizar o clima
 - um cafezinho quentinho agora, o cheiro está ótimo? 
Quero.
- e o pão, quer com queijo?
Quero.
A segunda resposta surge em tom melancólico.
O corpo apresenta mais retraído, menos altivo, como se dissesse: abraça-me!
Jujuba sente a possibilidade de reconciliação e começa a diminuir a abertura dos olhos, as pupilas dão sinais de normalidade, o rabo levanta, e, começa a caminhar em direção à porta de correr, da entrada da cozinha, para fazer sua primeira refeição do dia.
O rádio é ligado.
As mãos se tocam no repassar da bandeja, carinhosamente posta, pão com queijo brie, frutas, café e uma florzinha amarela retirada do jardim no caminho à padaria. 
Senta-se no sofá da sala para tomar o café enquanto escuta Marilia Mendonça cantar no rádio.
- vamos dar uma voltinha quando acabar o café? 
- o dia está lindo lá fora.
Será? Estou com preguiça.
O Timbre de voz está  mais ameno, como se dissesse: vem cá, amor, abraça-me?
- vamos! vamos comigo, fazer uma caminhada.
A face do rosto agora é infantil e indefesa, sinais de carência. 
Jujuba chega perto, roçando entre as pernas, era possível traduzir de seu miado o refrão da música: “bandeira branca, amor. Não posso mais. Pela saudade que me invade eu peço paz".
 - seu tênis está aqui.
Vou, será?
 - sim, deixa a louça na pia da cozinha, depois lavamos.
Uma das mãos se entrelaçam de verdade agora. Um empurrão ajuda tirá-lo do sofá, com a outra mão segura a bandeja com as migalhas de pão, percebe que a xícara está quase sem borra, nem se tivesse o dom de lê-la conseguiria ver o futuro, muito menos entender o presente. A flor, com seu amarelo intenso, continua a espalhar seu perfume, o qual parece mais intenso no momento. 
Volta para o sofá com o tênis na mão e começa a calçá-lo. 
Nossa, nem acredito que estou indo andar neste sol.
- não é você que adora andar ao sol? 
Quando estou animado, sim.
- irá se animar assim que estiver lá embaixo, o dia está lindo, como você.
Um sorriso tímido de contentamento no canto do rosto acompanhado do balançar de cabeça como se dissesse: lindo é você.
As mãos se entrelaçam pela terceira vez nesta manhã e, novamente, um puxão ajuda a levantá-lo do sofá, porém dessa vez os corpos aninham-se tornando-se quase um.
O ritmo das batidas dos corações segue o mesmo compasso.
 Um sussurro: 
Amo-te.
Jujuba mia, como se dissesse: "Graças a Deus!"
- Amo-te muito também.
 - está melhor?
Estou.
- quer falar por que acordou de mau humor, geralmente você acorda tão feliz.
Tive um sonho ruim.
- sonhou o quê?
Que tínhamos separado.
Miaauuu, jujuba mia alto e prolongado, com o Rabinho enroscado entre as pernas dos dois, como se dissesse: "Deus me livre se separarem!"
- Só foi um sonho. 
Outro sussurro: 
Obrigado por me aguentar, me respeitar, me completar.
Não se alterou, não perguntou o porquê de meu stress desnecessário. 
Desceu comprou pão, fez café.
Obrigado por tudo.
Amo-te.
Não quero me desgrudar de você.
- nem eu quero sair de seus braços.
Miaaauuuu, de barriga para cima, com as patinhas para cima, como se dissesse: "amo vocês, façam um carinho em mim também."
O ritmo dos batimentos do coração se descompassam, o calor do lado de fora invadi seus corpos.
Novo sussurro: 
- vamos deixar a corrida para o final da tarde? 
Vamos! 
Abraçados caminhão em direção ao quarto e deixam-se cair na cama. 
Os tênis são jogados longe. 
A música invade o ambiente.
Entre afogos e juras de amor, os corpos se penetram.
Jujuba observa o reinício de um dia e pensa: "ufa! São tão diferentes e tão iguais. Como se completam.  Miauuuu (Bom dia para vocês!)"
- bom dia, amor.
Bom dia, meu amor.

Gilberto Salles