31 de ago. de 2018

Viajar é preciso


 Ao sobrevoar as cordilheiras dos Andes, minutos antes de aterrissar no aeroporto internacional do Chile, fui tomando por uma profunda emoção.

Não sei dizer ao certo se deu por um motivo específico ou pela simultaneidade de sentimentos aflorados naquele instante, 25 de agosto de 2018, aniversário do meu pai, véspera do meu, em que estava a sobrevoar as cordilheiras, pelas quais fiquei maravilhado e grato por estar ali, na minha pequinês, a observar aquela plenitude da mãe natureza.

Ali, recordei do meu pai, dos meus pais, dos sonhos de criança, da adolescência, das conversas em família, dos amigos, das minhas crenças, bem como das promessas não cumpridas, das viagens prometidas tão sonhadas em família, e, consequentemente, lembrei da finitude dos momentos como, por exemplo, do abraço afetuoso que não pudera dar ao aniversariante do dia.

 Reflexivamente, tornei a me perguntar: “se eu desencarnasse hoje o que deixaria de legado como ser humano? O que fiz de bem ao próximo?

Em meio a essa ponderação e àquela contemplação da paisagem exuberante a qual eu sobrevoava, o piloto, da cabine, cumprimentou a todos e, surpreendentemente, verbalizou: “hoje, comemoro 12 anos de profissão e sempre trabalhando nesta companhia - Aerolíneas Argentinas - aproveito o momento para agradecer a oportunidade de poder fazer o que amo, voar, e, diante desta vista - das Cordilheiras dos Andes – por onde tive o privilégio de sobrevoar por tantos anos, agradeço a Deus por pelo meu trabalho”, prossegue: “Minha equipe, sou grato e orgulhoso de trabalhar com vocês.” Após uma rápida pausa, recomposto da emoção, ele continua: “Aproveito e digo a todo vocês, meus amigos, há anos sobrevoo esta cordilheira e, por isso, afirmo que ela já não é mais a mesma, ressalto a importância de cuidarmos do planeta, como podem ver, há grandes espaços descongelados nestas Cordilheiras, isso é o resultado negativo do aquecimento global, ou seja, não é mais uma questão de precaução mas sim de emergência, cuidemos do que é nosso, precisamos viver em harmonia com a natureza.

Diante de tudo que foi dito, envolto a minha introspecção, percebi o quanto o momento era sublime, visto que não era o único a burilar, entre as nuvens, diante da grandiosidade da natureza, pois era impossível ficar inerte durante aquela imensidão.

Assim, em forma de oração agradeci a Deus por tudo, pois imaginar estar ali, sobrevoando as Cordilheiras, há poucos anos, era um sonho impossível de se realizar.

Por um instante lembrei de alguns Países e cidades mundo afora, os quais tive a oportunidade de conhecer e, silenciosamente, gratulei ao universo por ser tão generoso comigo.

Reverberei: viajar é preciso e todos devem ter a oportunidade de conhecer outros países e descobrir o quanto somos pequenos diante da natureza, das cores, dos sons e dos sabores que há no mundo.

Não somos nada, não sabemos tudo, nem tão pouco exploraremos, por mais dinheiro que se possa ter, todo este imenso universo chamado Terra.

Viajar minimiza a soberbia e maximiza a solidariedade, ao menos, aos olhos daqueles que têm como intuito conhecer o mundo para se autoconhecer, rever os seus conceitos e o seu papel como cidadão do mundo, atualmente tão globalizado.

Clicks, posts, selfs são tão bem-vindos quanto uma conversa informal com um desconhecido da mesa ao lado no bar, da troca de experiência cultural, da oportunidade de novos amigos, da aprendizagem do idioma local e até das dicas de cuidados ao passear pela cidade.

Atravessar continentes, desfrutar de diferentes estações climáticas, banhar em novos oceanos, tudo isso só vale a pena se houver alguma transformação interna, se isso bagunçar, no melhor sentindo da palavra, as suas estruturas.

Ao desembarcar no aeroporto do Chile e entrar na fila para imigração, continuo em reflexão e agradecimento, e enquanto espero minha vez, em oração, peço licença para entrar no País, rito ensinado pela minha ancestralidade, de que se deve pedir licença ao entrar e ao sair na casa dos outros.

De repente chega a minha vez de passar pela imigração, acende o número “16” do letreiro, sigo até ao agente da cabine:


- Buenos días, su pasaporte, por favor?
- Sí.
- ¿Quienes viene a hacer aquí?
- Conocer su país, estoy de vacaciones!
- ¡sea bienvenido!
- muchas gracias y con licencia.

Autorizado, faço um sinal da cruz, piso com o pé direito e sigo rumo ao táxi.


Gilberto Salles Jr