Não
sei dizer ao certo se deu por um motivo específico ou pela simultaneidade de
sentimentos aflorados naquele instante, 25 de agosto de 2018, aniversário do
meu pai, véspera do meu, em que estava a sobrevoar as cordilheiras, pelas quais
fiquei maravilhado e grato por estar ali, na minha pequinês, a observar aquela plenitude
da mãe natureza.
Ali, recordei do meu pai, dos meus pais,
dos sonhos de criança, da adolescência, das conversas em família, dos amigos,
das minhas crenças, bem como das promessas não cumpridas, das viagens
prometidas tão sonhadas em família, e, consequentemente, lembrei da finitude
dos momentos como, por exemplo, do abraço afetuoso que não pudera dar ao
aniversariante do dia.
Em meio a essa ponderação e àquela contemplação
da paisagem exuberante a qual eu sobrevoava, o piloto, da cabine, cumprimentou
a todos e, surpreendentemente, verbalizou: “hoje,
comemoro 12 anos de profissão e sempre trabalhando nesta companhia -
Aerolíneas Argentinas - aproveito o momento para agradecer a oportunidade de
poder fazer o que amo, voar, e, diante desta vista - das Cordilheiras dos Andes
– por onde tive o privilégio de sobrevoar por tantos anos, agradeço a Deus por
pelo meu trabalho”, prossegue: “Minha
equipe, sou grato e orgulhoso de trabalhar com vocês.” Após uma rápida
pausa, recomposto da emoção, ele continua: “Aproveito e digo a todo vocês, meus
amigos, há anos sobrevoo esta cordilheira e, por isso, afirmo que ela já não é
mais a mesma, ressalto a importância de cuidarmos do planeta, como podem ver,
há grandes espaços descongelados nestas Cordilheiras, isso é o resultado
negativo do aquecimento global, ou seja, não é mais uma questão de precaução mas
sim de emergência, cuidemos do que é nosso, precisamos viver em harmonia com a
natureza.”
Diante de tudo que foi dito, envolto a minha
introspecção, percebi o quanto o momento era sublime, visto que não era o único
a burilar, entre as nuvens, diante da grandiosidade da natureza, pois era
impossível ficar inerte durante aquela imensidão.
Assim, em forma de oração agradeci a Deus por
tudo, pois imaginar estar ali, sobrevoando as Cordilheiras, há poucos
anos, era um sonho impossível de se realizar.
Por um instante lembrei de alguns Países e
cidades mundo afora, os quais tive a oportunidade de conhecer e,
silenciosamente, gratulei ao universo por ser tão generoso comigo.
Reverberei: viajar é preciso e todos devem ter a
oportunidade de conhecer outros países e descobrir o quanto somos pequenos
diante da natureza, das cores, dos sons e dos sabores que há no mundo.
Não somos nada, não sabemos tudo, nem tão pouco
exploraremos, por mais dinheiro que se possa ter, todo este imenso
universo chamado Terra.
Viajar minimiza a soberbia e maximiza a
solidariedade, ao menos, aos olhos daqueles que têm como intuito conhecer o
mundo para se autoconhecer, rever os seus conceitos e o seu papel como cidadão
do mundo, atualmente tão globalizado.
Clicks, posts, selfs são tão bem-vindos quanto
uma conversa informal com um desconhecido da mesa ao lado no bar, da troca de
experiência cultural, da oportunidade de novos amigos, da aprendizagem do
idioma local e até das dicas de cuidados ao passear pela cidade.
Atravessar continentes, desfrutar de diferentes
estações climáticas, banhar em novos oceanos, tudo isso só vale a pena se
houver alguma transformação interna, se isso bagunçar, no melhor sentindo da
palavra, as suas estruturas.
Ao desembarcar no aeroporto do Chile e entrar na
fila para imigração, continuo em reflexão e agradecimento, e enquanto
espero minha vez, em oração, peço licença para entrar no País, rito ensinado
pela minha ancestralidade, de que se deve pedir licença ao entrar e ao sair na
casa dos outros.
De repente chega a minha vez de passar pela imigração, acende o número “16” do letreiro, sigo até ao agente da cabine:
- Buenos días, su pasaporte, por favor?
- Sí.
- ¿Quienes viene a hacer aquí?
- Conocer su país, estoy de vacaciones!
- ¡sea bienvenido!
- muchas gracias y con licencia.
Autorizado, faço um sinal da cruz, piso com o pé
direito e sigo rumo ao táxi.
Gilberto Salles Jr

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