15 de abr. de 2026

Raízes em movimento

Há tempos sinto vontade de reencontrar-me com meu passado, minha essência, meu lado interiorano. Flashs de minha infância têm sido presentes, levando-me à casa de minha tia e de meus avós, como, por exemplo, a primeira vez em que experimentei a maçã caramelada comprada por minha tia no circo do centro da cidade, enquanto ela atentamente observava meu primeiro contato com aquele açúcar cristalizado, de cor vermelho-rubra hipnotizante.


Recordo-me de sua demonstração ao me ensinar como mover o maxilar para romper a crosta translúcida que cobria o amor,  nome dado àquele doce: maçã do amor.


Pela narrativa dessas lembranças e pela oportunidade de conhecer esse infinito particular, no interior do Sul do país, cidade natal do Cris, Santa Maria, não titubeei em ratificar a oportunidade de ir. Não seria apenas a chance de conhecer um pouco mais sobre ele e os seus, mas também de apresentar à minha criança interiorana outros sabores e saberes.


Poder atravessar a cidade grande rumo ao interior, deleitando-me com a paisagem dos pampas, com seu mar verde emoldurado por plantações, vez ou outra por palmeiras, casebres abandonados e horizontes sem fim.


No atual destino, neste percurso, lembro-me do quanto ainda tenho a conhecer deste país, de paisagens tão lindas e tão diversas, ao mesmo tempo em que percebo que tenho menos tempo do que outrora para desbravar tamanha infinitude.


Hoje, a lembrança do passado está mais exacerbada; insiste em fazer um paralelo com a paisagem que atravessa minha vista liberta, dentro deste corpo preso ao transporte que me leva ao destino desta viagem ao interior de Santa Maria, à história do Cris e, inevitavelmente, à minha também.


Ir ao encontro dessa intimidade tem sido um deleite para a alma de ambos. Em nossas histórias de vida, reencontrar as origens faz bem a todos: regenera a alma, faz-nos realinhar a rota da vida, seja qual for o tempo que ainda tenhamos para caminhar.


A viagem continua, e a paisagem se mostra diferente e exuberante a cada metro percorrido. Os pensamentos continuam a se misturar; a vontade é que todo esse burilamento não se acabe, mesmo quando o ponto final chegue.


Espero que a cidade resgate lembranças de família, de infância, mas que também nos reafirme o quanto somos abençoados por poder voltar sempre ao ponto de partida, seja presencialmente ou simplesmente fechando os olhos e permitindo sentir o cheiro, a voz, o som de quem nos deu a dádiva de nos tornarmos o que somos hoje.


Que possamos lembrar de caminhar pela vida na certeza de estar na companhia de todos os que são parte de nós; de que somos e estamos sempre conectados às nossas raízes mais profundas.


Gilberto Salles 

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