Misticamente, confiei ao número 13 e ao 7 o papel de meus amuletos de sorte. Era neles que depositava a esperança material e a magia espiritual.
Mas o número 5, sempre ele, teimava em atravessar o caminho. Tentava ignorá-lo, fingia que não o via, mas o 5 jamais se permitia ser esquecido. Enquanto eu me abraçava ao 13 e ao 7, ele sussurrava ao pé do meu ouvido:
“Estou aqui. Dê-me a mão.”
Como confiar minha sorte àquele que, com a mesma mão que acaricia, golpeia?
Mas ele, impassível, devolve-me em sussurros:
“Bater também é cuidar. Para se levantar, é preciso cair. Perder ensina a ganhar.”
Pondero… Mas por que os empurrões e os afagos têm pesos tão díspares?
“Pegue leve,” digo-lhe em silêncio.
E o 5 responde, sereno, com o peso das eras:
“Será que fui tão cruel quanto pensas? Vamos, revisite o caminho comigo.”
1975 — Chegas ao mundo.
1985 — A rejeição toma forma; a rua te mostra a face crua do preconceito.
1995 — A liberdade sorri; viajas sozinho, sem amarras, sem relógios, apenas descobertas.
2005 — A queda é profunda: a casa se desfaz, o amor se despedaça. Aprendes o peso da dor e a força de se reerguer.
2015 — A morte te encara de perto; lágrimas são o pão diário, mas a vida insiste: “Continue.”
2025 — 50 anos despontam no horizonte. Saúde. Esperança. Oportunidade. Amor próprio.
Revivo cada passo, e onde habitava sombra, agora há leveza. Reconheço-me mais inteiro.
O 5, com sua voz velada, ressurge:
“Será que ainda me julgas um impostor?”
Não me deixa responder. Relembra:
“Nos compassos dos 5, a ciranda dos teus é dançada. Seguram tuas mãos, partilham teus sonhos. Teus pais vieram sob minha unidade: dia 15, tua mãe; dia 25, teu pai.
E foi no 5º andar, na 115 Sul, que estreitaram laços e prometeram seguir unidos por toda eternidade”
Rendo-me, enfim. Não, 5, ainda não te chamo de sorte, mas não ouso mais negar-te. Reconheço-te em cada dobra do tempo, em cada dor que ensinou e em cada afago que curou.
Só te peço:
“Sejas mais brando daqui para frente. O caminho que resta é breve, e meus passos já não têm a pressa da juventude.”
Ele ri, com a malícia de quem sabe ser implacável:
“Não posso prometer mansidão. Minha imparcialidade é não ser cúmplice nem algoz. Mas farei o possível, entre quedas e carícias, entre calmaria e tempestades, ser um pouco mais leve.”
Gilberto Salles
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