20 de jan. de 2025

Cinco: A travessia do tempo

Misticamente, confiei ao número 13 e ao 7 o papel de meus amuletos de sorte. Era neles que depositava a esperança material e a magia espiritual. 

Mas o número 5, sempre ele, teimava em atravessar o caminho. Tentava ignorá-lo, fingia que não o via, mas o 5 jamais se permitia ser esquecido. Enquanto eu me abraçava ao 13 e ao 7, ele sussurrava ao pé do meu ouvido:

“Estou aqui. Dê-me a mão.”

Como confiar minha sorte àquele que, com a mesma mão que acaricia, golpeia?

Mas ele, impassível, devolve-me em sussurros:

“Bater também é cuidar. Para se levantar, é preciso cair. Perder ensina a ganhar.”

Pondero… Mas por que os empurrões e os afagos têm pesos tão díspares?

“Pegue leve,” digo-lhe em silêncio.

E o 5 responde, sereno, com o peso das eras:

“Será que fui tão cruel quanto pensas? Vamos, revisite o caminho comigo.”

1975 — Chegas ao mundo.

1985 — A rejeição toma forma; a rua te mostra a face crua do preconceito.

1995 — A liberdade sorri; viajas sozinho, sem amarras, sem relógios, apenas descobertas.

2005 — A queda é profunda: a casa se desfaz, o amor se despedaça. Aprendes o peso da dor e a força de se reerguer.

2015 — A morte te encara de perto; lágrimas são o pão diário, mas a vida insiste: “Continue.”

2025 — 50 anos despontam no horizonte. Saúde. Esperança. Oportunidade. Amor próprio.

Revivo cada passo, e onde habitava sombra, agora há leveza. Reconheço-me mais inteiro.

O 5, com sua voz velada, ressurge:

“Será que ainda me julgas um impostor?”

Não me deixa responder. Relembra:

“Nos compassos dos 5, a ciranda dos teus é dançada. Seguram tuas mãos, partilham teus sonhos. Teus pais vieram sob minha unidade: dia 15, tua mãe; dia 25, teu pai.

E foi no 5º andar, na 115 Sul, que estreitaram laços e prometeram seguir unidos por toda eternidade”

Rendo-me, enfim. Não, 5, ainda não te chamo de sorte, mas não ouso mais negar-te. Reconheço-te em cada dobra do tempo, em cada dor que ensinou e em cada afago que curou.

Só te peço:

“Sejas mais brando daqui para frente. O caminho que resta é breve, e meus passos já não têm a pressa da juventude.”

Ele ri, com a malícia de quem sabe ser implacável:

“Não posso prometer mansidão. Minha imparcialidade é não ser cúmplice nem algoz. Mas farei o possível, entre quedas e carícias, entre calmaria e tempestades, ser um pouco mais leve.”


Gilberto Salles

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