17 de jan. de 2025

O tempo



Nem mesmo a fugacidade desta década foi capaz de amenizar a vastidão dos dez anos sem sua presença. O tempo passou, mas a ausência se enraizou — profunda, teimosa, sempre viva.

O cotidiano, com suas artimanhas sutis e certeiras, nunca me permite esquecer. Está no cheiro do café da manhã que evoca memórias antigas; na playlist que toca aquelas músicas que você gostava. Está na colher de metal  da sua cozinha — a única que escolhi guardar, tentando, quem sabe, capturar o segredo do seu tempero. Está no reflexo que vejo no espelho do banheiro, em cada traço que, com o tempo, herdei de você. Tudo tem você. Tudo é você.

Escrevo para reafirmar: estamos aqui, com você e meu pai sempre dentro de nós. Partilhamos suas histórias com os amigos novos e rimos alto com aqueles que tiveram o privilégio de conviver com vocês. A saudade é parte de nós, uma companheira que não pede licença.

Estamos bem — como você gostaria que estivéssemos. Seus netos cresceram, cada um agora no seu canto do mundo, mas os destinos os levaram de volta às cidades dos pais. Babi está no Rio de Janeiro, Tarik em Belo Horizonte, e Kaká, com seus 14 anos e a ousadia que sempre o marcou, parte este mês para Uberlândia, onde jogará vôlei profissionalmente. Sabrina e Jef se dedicam à labuta de serem pais de três filhos que se aventuram no início da vida adulta. Com paciência e amor, soltam as mãos deles pouco a pouco, guiando-os para o pouso em terra firme, sempre vigilantes, sempre cheios de ternura.

Marcelo, por fim, aposentou-se. Resolveu fincar raízes no campo, uma casa nova para chamar de lar, uma morada que, sei, você e meu pai também chamariam de linda. Ele e Francisco já estão de mudança, aninhando-se na simplicidade que os abraça agora.

Quanto a mim e Cris, seguimos de mãos dadas. Às vezes, minha velha impulsividade tenta me fazer buscar agulhas em palheiros inexistentes, mas o amor sempre me faz repousar. Continuo o virginiano que tudo vê e tudo ouve — o irmão atento, o tio cuidadoso, chato para eles, o defensor nato. Hoje, em silêncio, os respeito em suas dores e alegrias, porque aprendi a respeitar as nuances de ser parte de uma família e respeitar o momento de cada um. Mas se precisar, não hesito: o velho Juninho ainda está aqui, com as armas prontas, sempre disposto a proteger os seus.

A vida segue seu curso, mas você permanece. Em cada canto. Em cada suspiro. No amor que não conhece tempo.

Amo-te, 

Feliz aniversario, Mãe🤍


* Hoje, 15/01,  Maria da Penha Garcia Salles completaria 78 anos. 

* Em fevereiro, faz 10 anos de sua passagem. 

* Em junho, faz 11 anos da passagem de Gilberto Salles, pai.

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