24 de dez. de 2024

Feliz Natal

Na simplicidade

que se pede 

na celebração 

de hoje 

re nasço

ao nascimento 

mais célebre

do mundo


na confraternização

da vida 

da famîlia

re novo

junto aos meus

à comunhão 


na fraternização 

do amor

glorificado hoje

para todos  

os outros dias

caminho

em harmonia 


na confraternização 

dos povos

na esperança 

pela paz 

universal

re afirmada

neste dia


sigo

crendo

na fé

e na união 

das famílias

ofertando

a todos 

o melhor

de mim


Feliz Natal! 

19 de fev. de 2019

Momentos Eternizados

Bom dia. Acordou agora? Que vozinha de sono!
A Zélia já chegou? Peça a ela para limpar os interruptores. O que teremos para o almoço? Estou com uma vontade de comer o seu filé à parmegiana.
As dores das pernas diminuíram? A Senhora é terrível, não vai ao médico de jeito nenhum!
Diariamente, as mesmas frases, as mesmas respostas, as mesmas cobranças.
Os mesmos horários, três vezes ao dia, duas ligações feitas do trabalho e a outra realizada no intervalo da novela das 21h.
Nos dias tranquilos, as risadas são as melhores, nos estressados ela é só silêncio, ao final da cartase a doce resposta: - “meu filho acalme-se, você ainda terá um enfarto, tão novo e já assim?!”
Faça o que eu falo, vocês não me escutam! A rispidez da intolerância é só para proteger, para salvar, essa é a única intensão.
Não importa a meteorologia, domingo a mesa é posta para a reunião familiar e amigos ou a quem queira chegar.
 Não vem? Poxa, fiz tanta comida! Você não veio semana passada também.
Está tudo bem com vocês? Como está o Cris, meu loirinho? Você não anda deixando ele agitado, não é?
Estou pensando em ir ao Cruzeiro do Roberto Carlos.
Vá sim, mãe, você vai adorar!
Não quero ir sozinha, quer ir comigo?
Não posso agora.
Comprei presentes para as crianças.
Novamente, “Dona Penha”? Vou amarrar suas mãos, sai da internet.
Meu computador está péssimo, está travando, vou ligar para o técnico.
Boa noite, fofo! Durma com Deus.
Você também mãe, durma com ele.
Vá deitar, não fume; ouviu, minha gordinha!
Ô menino chato...humm. Tchau.
Hoje as conversas são silenciosas, em forma de oração, ligada pelo coração.
O telefone calou-se; a casa está vazia.
A cabeça tenta alcançar os detalhes, a lembrança é dolorosa, o corpo dói.
A voz, o cheiro, a presença ainda são fortes.
Momentos cotidianos.
Momentos bons.
Momentos eternizados.


Gilberto Salles Jr

23 de set. de 2018

O Portal

De A a Z o alfabeto está completo, a macacada está reunida.
Desde sempre, encontram-se para rir, sambar, tocar, beber e levantar bandeira, neste quesito somos os melhores.
Se precisar há advogados, artistas - dos bons -, dentista, chef de cozinha, músicos, DJs, cartomantes, macumbeiros, católicos, gays, héteros, mães, simpatizantes, a lista é infinita.
Aqui, como já disse Martinho da Vila, um de nossos mentores, “todo mundo é bamba, todo mundo bebe, todo mundo samba, tem galinha preta, azeite de dendê e até canjica pra comer”. Aqui temos AXÉ. Saravá! 
Há plano piloto, satélites, interestadual e até internacional. 
Pode faltar tudo entre nós, dinheiro, sexo (acontece... rsss), até a saúde (Deus nos livre - faça um sinal da cruz) ou qualquer porra dessa, dificuldade sempre aparece quando menos esperamos. Mas não pode faltar o amor, o carinho, o afeto, a mão estendida e, principalmente, aquele olhar sincero do amigo-irmão, o qual  sabemos bem como é. A tecnologia dá aquela força na distância física. Santa internet!
Assim, tem sido anos após anos, cumprimos sabiamente a cartilha da amizade-sincera.
Nossa amizade transcende o físico, aqui peço um minuto de silêncio aos nossos queridos e amados, os quais estarão sempre encruados em nossos cognitivos,  que  conosco brincou, bebeu (e muito!), fizeram muita merda, fazemos merda siimm, somos desses.
Cada encontro é um portal que nos leva ao passado e nos deixa mais forte no presente. E o futuro, ahh, o futuro que se foda! Está tão bom o aqui e o agora.
Deixa a cerva gelada descer, a memória trabalhar e a lembrança aflorar.   
Abra os sentidos permita-se ir à new aquarius, com o seu gim barato e aguado, a escada sinistramente inclinada, o porteiro grosseiro, as travas e suas apresentações bizarras e corajosas, aos carnavais na w3, no eixão, às noites no beirute, no Atlas, no Bizarre, na T99...
Tenho pena daqueles que dizem estarmos parado no tempo. 
Queria eu que este portal aberto nos prendesse para sempre lá, na Terra do nosso nunca: nunca tristeza, nunca medo, nunca preconceito, nunca o dia seguinte de ontem. Sempre vivemos intensamente. 
Gostamos mesmo dos que têm fome, dos que morrem de desejo, dos que ardem, como Adriana Calcanhoto. 
Vamos aproveitar o momento, cada segundo entre nós, sairemos somente quando a última luz acender para nos lembrar de que temos de retornar ao futuro-presente, não cederemos facilmente, unidos, lutemos para continuar no passado-presente para que não nos leve até ao portal da saída. Vamos dar as mãos, mostremos nossa resistência, e se involuntariamente sairmos, sairemos entrelaçados para não nos perdermos no caminho, vamos cantando, cantando bem alto, registrando nossa indignação, queremos ficar aqui, entre lá e cá, para sempre: “pode passar o rodo e me mandar embora que vou ficar dançando lá do lado de fora, pode passar o rodo e me mandar embora que vou ficar dançando lá do lado de fora... sai, sai do meu caminho...” 

Gilberto Salles Junior

31 de ago. de 2018

Viajar é preciso


 Ao sobrevoar as cordilheiras dos Andes, minutos antes de aterrissar no aeroporto internacional do Chile, fui tomando por uma profunda emoção.

Não sei dizer ao certo se deu por um motivo específico ou pela simultaneidade de sentimentos aflorados naquele instante, 25 de agosto de 2018, aniversário do meu pai, véspera do meu, em que estava a sobrevoar as cordilheiras, pelas quais fiquei maravilhado e grato por estar ali, na minha pequinês, a observar aquela plenitude da mãe natureza.

Ali, recordei do meu pai, dos meus pais, dos sonhos de criança, da adolescência, das conversas em família, dos amigos, das minhas crenças, bem como das promessas não cumpridas, das viagens prometidas tão sonhadas em família, e, consequentemente, lembrei da finitude dos momentos como, por exemplo, do abraço afetuoso que não pudera dar ao aniversariante do dia.

 Reflexivamente, tornei a me perguntar: “se eu desencarnasse hoje o que deixaria de legado como ser humano? O que fiz de bem ao próximo?

Em meio a essa ponderação e àquela contemplação da paisagem exuberante a qual eu sobrevoava, o piloto, da cabine, cumprimentou a todos e, surpreendentemente, verbalizou: “hoje, comemoro 12 anos de profissão e sempre trabalhando nesta companhia - Aerolíneas Argentinas - aproveito o momento para agradecer a oportunidade de poder fazer o que amo, voar, e, diante desta vista - das Cordilheiras dos Andes – por onde tive o privilégio de sobrevoar por tantos anos, agradeço a Deus por pelo meu trabalho”, prossegue: “Minha equipe, sou grato e orgulhoso de trabalhar com vocês.” Após uma rápida pausa, recomposto da emoção, ele continua: “Aproveito e digo a todo vocês, meus amigos, há anos sobrevoo esta cordilheira e, por isso, afirmo que ela já não é mais a mesma, ressalto a importância de cuidarmos do planeta, como podem ver, há grandes espaços descongelados nestas Cordilheiras, isso é o resultado negativo do aquecimento global, ou seja, não é mais uma questão de precaução mas sim de emergência, cuidemos do que é nosso, precisamos viver em harmonia com a natureza.

Diante de tudo que foi dito, envolto a minha introspecção, percebi o quanto o momento era sublime, visto que não era o único a burilar, entre as nuvens, diante da grandiosidade da natureza, pois era impossível ficar inerte durante aquela imensidão.

Assim, em forma de oração agradeci a Deus por tudo, pois imaginar estar ali, sobrevoando as Cordilheiras, há poucos anos, era um sonho impossível de se realizar.

Por um instante lembrei de alguns Países e cidades mundo afora, os quais tive a oportunidade de conhecer e, silenciosamente, gratulei ao universo por ser tão generoso comigo.

Reverberei: viajar é preciso e todos devem ter a oportunidade de conhecer outros países e descobrir o quanto somos pequenos diante da natureza, das cores, dos sons e dos sabores que há no mundo.

Não somos nada, não sabemos tudo, nem tão pouco exploraremos, por mais dinheiro que se possa ter, todo este imenso universo chamado Terra.

Viajar minimiza a soberbia e maximiza a solidariedade, ao menos, aos olhos daqueles que têm como intuito conhecer o mundo para se autoconhecer, rever os seus conceitos e o seu papel como cidadão do mundo, atualmente tão globalizado.

Clicks, posts, selfs são tão bem-vindos quanto uma conversa informal com um desconhecido da mesa ao lado no bar, da troca de experiência cultural, da oportunidade de novos amigos, da aprendizagem do idioma local e até das dicas de cuidados ao passear pela cidade.

Atravessar continentes, desfrutar de diferentes estações climáticas, banhar em novos oceanos, tudo isso só vale a pena se houver alguma transformação interna, se isso bagunçar, no melhor sentindo da palavra, as suas estruturas.

Ao desembarcar no aeroporto do Chile e entrar na fila para imigração, continuo em reflexão e agradecimento, e enquanto espero minha vez, em oração, peço licença para entrar no País, rito ensinado pela minha ancestralidade, de que se deve pedir licença ao entrar e ao sair na casa dos outros.

De repente chega a minha vez de passar pela imigração, acende o número “16” do letreiro, sigo até ao agente da cabine:


- Buenos días, su pasaporte, por favor?
- Sí.
- ¿Quienes viene a hacer aquí?
- Conocer su país, estoy de vacaciones!
- ¡sea bienvenido!
- muchas gracias y con licencia.

Autorizado, faço um sinal da cruz, piso com o pé direito e sigo rumo ao táxi.


Gilberto Salles Jr


3 de out. de 2016

Cotidiano

Nossa, calor do inferno. 
Sol? não! Cadê a chuva, o dia nublado, as nuvens pesadas?
Porra! Chega para lá. 
Cadê meu café? 
Jujuba, você comeu? tomou água? Gaaaata, sujou o chão todo com a areia da caixa sanitária.
Quando vai aprender tapar suas merdas com a areia sem jogar tudo para fora, no chão.
- amor? 
Quero pão com café.
- amor?
Amanhã já é segunda-feira, que porra!
- amor?
Leva meu carro para lavar.
- amor, é a terceira vez que o chamo, pode olhar para mim um pouco? 
Desliga esse rádio, sabe que odeio esta música.
- amor?
Não, não acredito, cadê o abacaxi, falei várias vezes que não era para esquecer. Tá difícil demais. Ah, que saco!
 - amor, amorzinho? 
A porta da cozinha bate.
O chuveiro é aberto.
Um silêncio invade o ambiente. 
Somente o olhar atento da felina, persa, acompanha o seu dono se movimentar embaixo d'água enquanto o blindex não fica todo embaçado.
A porta da cozinha bate novamente.
- amor? amor?
- trouxe o abacaxi, o café está pronto. 
- o pão está quentinho.
- o dia está lindo lá fora!
- vamos andar um pouquinho depois de tomar o café?
- vamos aproveitar o domingo!
- amanhã, graças a Deus, é segunda-feira, uma nova semana, novas oportunidades!
- como gosto disso tudo.

Sem dar uma resposta, ouve-se o girar do registro do chuveiro, sendo paulatinamente desligado.
A gata corre do tapete do banheiro, no intuito de avisar que o banho acabou.
O blindex se abre.
A toalha branca é retirada do suporte.
- amor? Ouviu o que eu disse?
Nenhuma resposta.
- amor? o café está pronto, o abacaxi já está descascado e fatiado, guardado no tapoer.
- venha logo, esquentarei o pão, deve ter esfriado um pouquinho.

A gata visivelmente agitada percorrer pela cozinha. Os olhos parecem querer saltar da cara achatada. Rabo entre as pernas. 
- viu fantasma, jujuba? que cara é esta?
- bom dia, meu amor.
- tomou um banhozinho?
O silêncio perdura.
Escuta-se o caminhar em direção à cozinha, um pigarro é solto na tentativa de quebrar o silêncio.
A gata parece petrificar-se e, inacreditavelmente, consegue arregalar ainda mais os olhos.
Os olhares se perpassam em segundos, um irradiante de amor e alegria, o outro carente, chateado, infantil.
O cheiro do café serve de pretexto para uma nova tentativa de harmonizar o clima
 - um cafezinho quentinho agora, o cheiro está ótimo? 
Quero.
- e o pão, quer com queijo?
Quero.
A segunda resposta surge em tom melancólico.
O corpo apresenta mais retraído, menos altivo, como se dissesse: abraça-me!
Jujuba sente a possibilidade de reconciliação e começa a diminuir a abertura dos olhos, as pupilas dão sinais de normalidade, o rabo levanta, e, começa a caminhar em direção à porta de correr, da entrada da cozinha, para fazer sua primeira refeição do dia.
O rádio é ligado.
As mãos se tocam no repassar da bandeja, carinhosamente posta, pão com queijo brie, frutas, café e uma florzinha amarela retirada do jardim no caminho à padaria. 
Senta-se no sofá da sala para tomar o café enquanto escuta Marilia Mendonça cantar no rádio.
- vamos dar uma voltinha quando acabar o café? 
- o dia está lindo lá fora.
Será? Estou com preguiça.
O Timbre de voz está  mais ameno, como se dissesse: vem cá, amor, abraça-me?
- vamos! vamos comigo, fazer uma caminhada.
A face do rosto agora é infantil e indefesa, sinais de carência. 
Jujuba chega perto, roçando entre as pernas, era possível traduzir de seu miado o refrão da música: “bandeira branca, amor. Não posso mais. Pela saudade que me invade eu peço paz".
 - seu tênis está aqui.
Vou, será?
 - sim, deixa a louça na pia da cozinha, depois lavamos.
Uma das mãos se entrelaçam de verdade agora. Um empurrão ajuda tirá-lo do sofá, com a outra mão segura a bandeja com as migalhas de pão, percebe que a xícara está quase sem borra, nem se tivesse o dom de lê-la conseguiria ver o futuro, muito menos entender o presente. A flor, com seu amarelo intenso, continua a espalhar seu perfume, o qual parece mais intenso no momento. 
Volta para o sofá com o tênis na mão e começa a calçá-lo. 
Nossa, nem acredito que estou indo andar neste sol.
- não é você que adora andar ao sol? 
Quando estou animado, sim.
- irá se animar assim que estiver lá embaixo, o dia está lindo, como você.
Um sorriso tímido de contentamento no canto do rosto acompanhado do balançar de cabeça como se dissesse: lindo é você.
As mãos se entrelaçam pela terceira vez nesta manhã e, novamente, um puxão ajuda a levantá-lo do sofá, porém dessa vez os corpos aninham-se tornando-se quase um.
O ritmo das batidas dos corações segue o mesmo compasso.
 Um sussurro: 
Amo-te.
Jujuba mia, como se dissesse: "Graças a Deus!"
- Amo-te muito também.
 - está melhor?
Estou.
- quer falar por que acordou de mau humor, geralmente você acorda tão feliz.
Tive um sonho ruim.
- sonhou o quê?
Que tínhamos separado.
Miaauuu, jujuba mia alto e prolongado, com o Rabinho enroscado entre as pernas dos dois, como se dissesse: "Deus me livre se separarem!"
- Só foi um sonho. 
Outro sussurro: 
Obrigado por me aguentar, me respeitar, me completar.
Não se alterou, não perguntou o porquê de meu stress desnecessário. 
Desceu comprou pão, fez café.
Obrigado por tudo.
Amo-te.
Não quero me desgrudar de você.
- nem eu quero sair de seus braços.
Miaaauuuu, de barriga para cima, com as patinhas para cima, como se dissesse: "amo vocês, façam um carinho em mim também."
O ritmo dos batimentos do coração se descompassam, o calor do lado de fora invadi seus corpos.
Novo sussurro: 
- vamos deixar a corrida para o final da tarde? 
Vamos! 
Abraçados caminhão em direção ao quarto e deixam-se cair na cama. 
Os tênis são jogados longe. 
A música invade o ambiente.
Entre afogos e juras de amor, os corpos se penetram.
Jujuba observa o reinício de um dia e pensa: "ufa! São tão diferentes e tão iguais. Como se completam.  Miauuuu (Bom dia para vocês!)"
- bom dia, amor.
Bom dia, meu amor.

Gilberto Salles

21 de nov. de 2010

Como a vida no mar

Como o marinheiro, a preparar a embarcação para enfrentar mares nunca dantes navegados, com toda astúcia e coragem, tal como costumam fazer os destemidos, encontrava-me ansioso por levantar vela e me deixar levar ao encontro da terra firme onde só os meus sonhos desejavam chegar.

Como na maioria das viagens vitoriosas a travessia foi revolta, violenta e difícil. Algumas grandes perdas no caminho, mas, em contrapartida, as dificuldades fizeram aflorar forças internas adormecidas, e assim a embarcação seguia em frente com aguerridos a bordo.
Como num piscar de olhos o destino estava mais perto do que nunca, o sonho impossível, tornava-se cada vez mais palpável e as esperanças se renovavam. Uma mistura de medo e felicidade me inundava. As águas que há anos, meses, dias, deslizavam sob meus pés, agora estavam a invadir-me o peito e, pelos meus olhos, rolavam e insistiam em retornar às águas salgadas do mar.
Como esperado, chegar à terra firme não foi fácil, desbravar é tão mais complicado quanto mais tortuoso o caminho. Pisar forte, marcando presença, e, tendo ao mesmo tempo sutileza, sem assustar, é artifício de poucos. Porém, para quem traz no corpo as cicatrizes da sobrevivência nada pode ser tão difícil quanto queira parecer. Logo, o desbravador já fazia parte do cotidiano e, com os iguais, falava a mesma língua, se fazia compreender e pela grande maioria era compreendido.
Como é comum ao coração navegante, a permanência por aquelas terras não passaria de anos, entretanto os contatos ali firmados e os aprendizados adquiridos seriam para sempre: os navegadores nunca saem sem deixar o porto aberto para futuras atracações. As boas relações são o primado maior do além-mar.
Como outrora, as velas são içadas, a embarcação se prepara para seguir rumo a novos horizontes, a marola do mar se encarrega de fazer a parte que lhe cabe, e assim, levando na bagagem mais experiência, confiança e profissionalismo, o marinheiro fica a admirar da proa, o futuro virar passado, e, do presente momento ânsias, um futuro de conquistas e prosperidade em outros mares nunca dantes navegados.
Como os incansáveis desbravadores, ambiciono ancorar a embarcação definitivamente a algum porto, e dali contemplar as estratégias traçadas para vencer as tempestades, analisar as batalhas perdidas, e, poder concluir que apesar das dificuldades, valeu a pena todo o esforço a busca pela terra segura e estável, tão penosa de conquistar.

Gilberto Salles Jr

29 de set. de 2010

À Yoani Sánchez com carinho

Cara Yoani Sánchez,

Viva!  Viva a sua coragem!

Não achei outra maneira de começar, a não ser edificando a sua coragem. Corajosos como você, que me enchem de orgulho de fazer parte dos considerados seres sapientes, como se vangloriam muitos e é mérito de poucos.

Há muito acompanho e torço pelo povo Cubano, por quem tenho verdadeira admiração. Como bem citado em sua carta encaminhada ao Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, nossos laços iniciaram-se desde os tempos abomináveis da escravidão – o qual fundamentou suas raízes em ambas as terras – e, infelizmente, até os dias atuais, mancha nosso imaculado solo, de uma forma velada, mas não menos atroz.

Talvez, por essa ligação tão forte de outrora, hoje, me inunda os olhos, um misto de saudade e alegria, ao ouvir Omara Portuondo, ler Pedro Juan Gutiérrez, Wendy Guerra e tantos outros, ao mesmo tempo em que sinto um desespero e raiva ao ver esta linda Ilha continuar - desculpe-me a comparação – como um campo de concentração em pleno século XXI.

Peço licença, primeiramente, para fazer da tua voz, a minha voz e a de milhões de pessoas que compartilham da luta de nossos irmãos cubanos. O grito de liberdade deve ecoar sempre, a coragem deve ser renovada a cada amanhecer e a persistência não pode esmorecer jamais.

Saiba que não está sozinha nessa luta e, dela, peço: não desista. Como nós aqui, que desde a mais tenra idade aprendemos - com muito orgulho – que não devemos fugir à luta, como bravamente mencionado em nosso Hino Nacional Brasileiro:

  “BRASIL,DE AMOR ETERNO SEJA SÍMBOLO
O LÁBARO QUE OSTENTAS ESTRELADO,
    E DIGA O VERDE-LOURO DESSA FLÂMULA
   PAZ NO FUTURO E GLÓRIA NO PASSADO.
           MAS, SE ERGUES DA JUSTIÇA A CLAVA FORTE,
          VERÁS QUE UM FILHO TEU NÃO FOGE À LUTA,
                 NEM TEME, QUEM TE ADORA, A PRÓPRIA MORTE.”

E, revelo, nossa luta é tão árdua quanto a vossa, embora, não nego, evoluímos. Hoje, estamos à quem um dia pensamos ser e estar, mas o temor do retrocesso é como pesadelo que teima em nos acordar de um doce sonho.

Mas de nada adianta, ao meu ver, um país que olha somente para os próprios interesses. Então, de que vale a busca incessante pela globalização e tantas outras interações, se fazemos de conta não ouvir o clamor de nossos irmãos?

Óbvio, que não julgo as questões de Soberania, Diplomacia e Protocolos, contudo levanto bandeira em favor dos interesses da prevalência dos direitos humanos, da solução pacífica dos conflitos, do repúdio ao terrorismo e ao racismo e da cooperação entre os povos para o progresso da humanidade, como expresso em nossa Carta Magna, e como rege nossos princípios internacionais.

Por isso, registro aqui minha indignação pela falta de resposta à  sua humilde e tocante solicitação. Como brasileiro e cidadão consciente do meu papel social, que não acredita em utopia, mas sim nos direitos que não devem ser cerceados, na liberdade de expressão e na liberdade de ir e vir – seja em qualquer parte do mundo -, peço-lhe humildemente desculpas pelo radicalismo, autoritarismo e violação dos direitos humanos por todos aqueles que se sentem no dever de governar em nome da Intolerância.

Espero, sinceramente, poder em breve vê-la receber todos os prêmios pessoalmente, ver o povo cubano festejar sua vitória e assistir ao regime Totalitário dar licença à Democracia.

E saiba que neste dia estarei de pé a aplaudi-la, não só pela sua conquista pessoal, mas em agradecimento pelos exemplos de perseverança, humildade, determinação, esperança e coragem.

Salve a liberdade!
Salve o povo cubano!
Salve Yoani Sánchez!

Gilberto Salles Jr.


18 de set. de 2010

Pode entrar: Mi Casa, SU Casa

Desculpe-me os que não foram convidados, mas a melhor opção na sexta-feira tem endereço certo, só quem conhece pode confirmar. Porém, de antemão vos digo: para ter acesso a este ambiente é preciso ter alma leve, muito amor no peito, riso frouxo, mediunidade aflorada, fígado de aço, pulmão de ferro e a língua afiada.

Na caixa, ou melhor, ao DVD, Alcione já está a postos dando as boas-vindas aos que sabem: à noite só está começando, e com a música de abertura: “Não deixa o Samba morrer” os trabalhos são iniciados.

Almofada ao chão para agüentar o belo “corpitcho” do anfitrião que, no decorrer da noite, ficará sentado na mesma posição, servindo e sendo servido, deixando todos entregues ao bel-prazer, e, a meia-luz, tenta de todas as maneiras deixar o ambiente confortável aos amigos.

Todos com as armas em punho, digo, com as cervas gélidas a posto, à noite começa, e se começa.

Ao som da melhor MPB, a fumaça do cigarro vai tomando conta do lugar e misturando-se com agradabilíssimo aroma dos caldos e molhos das massas, que vem da cozinha, sob o comando do chefe Gaúcho, dando garantia aos convidados que a matula da madrugada está confirmada.

Com tudo nos trinques, entram em cena os emocionantes, às vezes, duros e ásperos papos, cheios de carga emotivos, mas sem dúvida, agregador de valores, principalmente se o tema é amor, como gostam de debatê-los.

Se estiver lhe parecendo um ambiente normal, como encontro em casa de amigos nos fins de semana, não se engane que não é. Pergunto: é comum no mesmo lugar encontrar um índio louco por novela, que parece ter engolido uma rádio vitrola, de Oriximiná–PA, um alucinado pelo trabalho e com dentes vermelhos de tanto vinho, de Santa Maria-RS, um jovem-tio que bebe, ri e chora ao mesmo tempo, de Mesquita-RJ, uma tia-jovem que "entorna" a noite inteira e pela manhã está como senão tivesse colocado uma gota de álcool na boca, do Rio Branco-AC, um saradão que no primeiro gole de ice está mais para lá que para cá, de Astorga-PR, um pervertido e uma safada que no terceiro gole querem colocar as nádegas para fora, e outras tantas figuras que é melhor nem comentar? Duvido!

Esse caldeirão de sotaques e personalidades que faz toda diferença, a cada golada do precioso líquido dourado, as histórias de infância, amores perdidos, amizades desfeitas, alegria, raiva, perdão, amor, sexo e saudade são verbalizadas.

Cada lata vazia é um adorno a mais para pequenina mesa de centro, a qual há esta hora, mal consegue ter espaço para colocar o cinzeiro.

À noite lá fora está mais silenciosa e lá dentro está parecendo à rodoviária do plano, às 18h: um vai vem, sumiço de isqueiros, pedidos de cervejas, danças do Oiapoque ao Chuí, solicitação por variados cantores, pois o nível da trupe é alto, tão quanto o álcool que lhes sobem à cabeça, - todos sabem desfrutar da boa companhia dos compositores brasileiros -, muitas risadas gostosas, fila para o banheiro, e alguns tentando manter a ordem, do aconchegante apartamento, que neste momento tem mais gente querendo chegar, inclusive “a sargentona” síndica que sempre marca presença para encher o saco.

E, assim, a manhã vem chegando sorrateira, e ninguém vai saindo, o dono da festa encontra-se rindo para as paredes, trocando alho com bugalhos, com o sorriso ao rosto e dando tapas na barriga, sua marca registrada, pede para que todos permaneçam.

É fácil entender porque é tão boa a energia que corre naquele pequeno grande espaço, e assim, foi se transformando num dos melhores lugares para começar o fim de semana. Como reflexo do dono, sua casa está aberta como seu coração, para quem de bem quiser entrar, afinal de contas: MI CASA SU CASA, PODE ENTRAR.




9 de set. de 2010

Dê-me licença, que vou passar!

Isso mesmo, não solicito, informo, agora é assim. Momentos perdidos, perturbações à cabeça, autoflagelo, não farão mais parte da minha vida. Farei tudo o que desejar, tudo o que meu corpo permitir e tudo o que meu coração mandar.

Com serenidade, hoje, consigo ver que todos passam, passaram e/ou passarão por algum tipo de preconceito. Talvez, para alguns, não seja tão doloroso quanto para o outro, mas não importa, discriminação é dolorosa.

Ter a cabeça bem estruturada para agüentar o tranco e seguir em frente é fundamental para ajudar no processo de nossa evolução, ou melhor, aceitação, e não deixar pelo caminho oportunidades que não voltarão ou serão bem mais difíceis retomá-las, pois o tempo não espera.

Questionamentos como: por que sou assim e não assim? Por que tenho a pele mais escura que a dele? Por que não nasci em uma família afortunada? Por que gosto de meninos ao invés de desfrutar o sabor tão desejado da fêmea? Por que, porque, o porquê, por quê?

São tantas perguntas sem respostas, que buscá-las não nos leva a lugar algum, e tentar omiti-las, escondê-las em nosso mais profundo “eu” é um desperdício. Saber dá a volta por cima e aprender a si entender é o grande desafio por muitos.

Mas como fazer para que esse processo não seja tão tardio e não faça perdermos os melhores momentos da vida? Saber aceitar a diferença, assumir que somos muito mais que o hoje e que ninguém é perfeito, é um grande passo.

Isso mesmo, ninguém é perfeito, talvez nos dissemos todos os dias, ou pelo menos, nos momentos em que os “ por quês” tentam tirar a nossa paz interior, tornando o nosso dia sombrio. É assim mesmo que o sentimento de inferioridade nos faz sentir: sombrio, incapaz.

Sair da escuridão e ver a luz todos os dias ao amanhecer no mais puro resplendor, sem sentir culpado, inferiorizado, incapaz e discriminado é um desafio por muitos, disso tenho certeza.

Então, caros, não se sintam só neste imenso mar de aceitação e conflitos, mas tenham a certeza que perder seu tempo a responder os porquês ou desperdiçar, seu valioso dia, a alimentar a chama da piedade dentro de si, só o levará  ver a vida passar, e lamentar pelo o que deixou de fazer.

Seja dono do seu caminho, faça você a sua história, e deixe cada um seguir o caminho da maneira que o melhor convir.

Agora, dê-me licença, vou passar, meu caminho sigo eu, minhas sementes planto eu, minha felicidade colho eu!!!

Gilberto Salles Jr

Obrigado

Obrigado Senhor pelos Garcia Salles de hoje, ontem e amanhã.

Obrigado Senhor pelos Rangel de Araújo que me ensinaram a compreender minha essência e a ser feliz com ela.

Obrigado Senhor pelos Silva Esteves que me mostraram o que é ter garra e perseverança.

Obrigado Senhor pelos Pituba Faria que me dão a chance de exercitar a minha fé, e mostram que somos muito mais que o hoje.

Obrigado Senhor pelos Ferreira de Moraes que me ensinaram que a fé remove montanhas, e que não é qualquer tempestade que dissolve dentro dos nossos corações todo ensinamento deixado por Vós.

Obrigado senhor pelos Vianna do Prado que me ensinaram que a união supera qualquer dor.

Obrigado Senhor pelos Gonçalves de Rezende que me ensinam que ser bom, ser honesto e leal não é uma obrigação, mas sim, uma virtude.

Obrigado Senhor pelos Meirelles de Araújo que me ensinam que a disciplina, o objetivo e a racionalidade nos leva aonde nossos sonhos nos permite.

Obrigado Senhor pelos Silva de Araújo que me mostram que ter a ingenuidade da criança e ambição dos inocentes não faz mal a ninguém.

Obrigado Senhor pelos Barbosa de Miranda que me ensinam que estender a mão ao próximo é uma benção.

Obrigado Senhor pelos Fued Nacif que me mostram a cada dia a virtude de formar uma família, e de ser íntegro, e que a busca pelo saber deve ser incansável.

Obrigado Senhor pelos Lopes Homrich que me ensinam que o almejar, dentro dos nossos limites, é parte da nossa evolução.

Obrigado Senhor pelos Souza e Silva que me ensinam, sempre, como é belo semear uma amizade de verdade, e que o verdadeiro prazer de uma gargalhada gostosa com amigos não tem preço.

Obrigado Senhor pelos Andrade da Costa que me mostram a força da união familiar, e quanto é admirável a força da união feminina.

Obrigado Senhor pelos Adolfo Santos que me ensinam como é bom ser livre, ser alegre e ter na alma a vontade de viver.

Obrigado Senhor pelos Vasconcelos que me mostraram que a chama da juventude deve estar sempre acessa em nossa alma, e que me ensinaram o prazer de brindar dos mais simples aos mais sofiticados momentos.

Obrigado Senhor pelos Coim que me mostram como são fortes os laços familiares.

Obrigado Senhor pelos Cabral que me ensinam que a arte é uma virtude, e que não devemos desistir nunca dos nossos sonhos.

Obrigado Senhor pelos Burmann que me ensinam que ser justo, forte e verdadeiro não é grosseria, e sim ser honesto e estar em paz consigo mesmo.

Obrigado Senhor pelos Gama de Souza que me ensinam que ter boa vontade e fé nos eleva a alma.

Obrigado Senhor pelos Lunier Barreto que me ensinam que perdoar é um dos mandamentos mais sublimes.

Obrigado Senhor pelos Clemente Monsó que me ensinam, mesmo distantes dos entes queridos, devemos respeitá-los, cultivá-los e admirá-los.

Obrigado Senhor pelos Moraes Barbosa que me ensinaram que dias melhores sempre estão por vim.

Obrigado Senhor pelos Alves Santana que me ensinam que a união faz a força.

Obrigado Senhor pelos Coube Simões que me ensinam a ser forte como a pedreira e tão suave quantas águas calmas do mar sagrado nos momentos exatos.

Obrigado Senhor pelos Martins que me mostram que uma é pouco, duas é bom e três é melhor ainda, pois sempre há espaço para mais uma.

Obrigado Senhor pelos Mota que me ensinam que a Humildade é o caminho mais fácil para ir ao seu encontro.

Obrigado Senhor pelos Alvis Nunis que me ensinam que os vitoriosos não desistem no caminho.

Obrigado Senhor pela família Grancursos que me ensinou que não há distância que separe amizades verdadeiras.

Obrigado Senhor pela família COORF – MS que me ensina que não há obstáculos quando queremos alcançar nossos objetivos, e que o trabalho dignifica o homem.

Obrigado Senhor pela família Aurora Alimentos que permite várias famílias sonharem com um futuro melhor.

Obrigado Senhor pelos que estão acima de mim.

Obrigado Senhor pelos que estão ao meu lado.

Obrigado Senhor pelos que estão abaixo de mim.

Obrigado Senhor pelos que estão a minha frente.

Obrigado Senhor pelos que estão atrás de mim.

Obrigado Senhor pelos que permanecem no meu caminho.

Obrigado Senhor pelos que não passaram pelo caminho.

Obrigado Senhor pelo os quais não pude mostrar meu lado mais divino.

Obrigado Senhor pelos meus amigos.

Obrigado Senhor pelos meus acertos.

Obrigado Senhor pelos meus erros.

Obrigado Senhor pela minha família.

Obrigado Senhor pela minha Umbanda.

Obrigado Senhor pelo amanhecer, entardecer e o anoitecer.

Obrigado Senhor pela minha vida.

Obrigado Senhor pela Maria Betânia, Alcione, Cássia Eller, Zizi Possi, Luiza Possi, Ivone Lara, Martinália, Maria Gadú, Ana Carolina, Vanessa da Mata, Ângela Rôro...

Obrigado Senhor pelas Mulheres.

Obrigados Senhor pelos Homens.

Obrigado Senhor pela Socorro, Zélia, Maria, Mari e Cora.

Obrigado Senhor pelos meus padrinhos.

Obrigado Senhor pelos meus ancestrais, avós, pais, irmão, sobrinhos e cunhados.

Obrigado Senhor pelos meus 35 anos.

Obrigado Senhor pelos ALLES que me ensinam que viver é bom, que amar é melhor ainda, e que alma gêmea existe!

Obrigado, Obrigado, Obrigado...

Gilberto Salles Jr