21 de nov. de 2010

Como a vida no mar

Como o marinheiro, a preparar a embarcação para enfrentar mares nunca dantes navegados, com toda astúcia e coragem, tal como costumam fazer os destemidos, encontrava-me ansioso por levantar vela e me deixar levar ao encontro da terra firme onde só os meus sonhos desejavam chegar.

Como na maioria das viagens vitoriosas a travessia foi revolta, violenta e difícil. Algumas grandes perdas no caminho, mas, em contrapartida, as dificuldades fizeram aflorar forças internas adormecidas, e assim a embarcação seguia em frente com aguerridos a bordo.
Como num piscar de olhos o destino estava mais perto do que nunca, o sonho impossível, tornava-se cada vez mais palpável e as esperanças se renovavam. Uma mistura de medo e felicidade me inundava. As águas que há anos, meses, dias, deslizavam sob meus pés, agora estavam a invadir-me o peito e, pelos meus olhos, rolavam e insistiam em retornar às águas salgadas do mar.
Como esperado, chegar à terra firme não foi fácil, desbravar é tão mais complicado quanto mais tortuoso o caminho. Pisar forte, marcando presença, e, tendo ao mesmo tempo sutileza, sem assustar, é artifício de poucos. Porém, para quem traz no corpo as cicatrizes da sobrevivência nada pode ser tão difícil quanto queira parecer. Logo, o desbravador já fazia parte do cotidiano e, com os iguais, falava a mesma língua, se fazia compreender e pela grande maioria era compreendido.
Como é comum ao coração navegante, a permanência por aquelas terras não passaria de anos, entretanto os contatos ali firmados e os aprendizados adquiridos seriam para sempre: os navegadores nunca saem sem deixar o porto aberto para futuras atracações. As boas relações são o primado maior do além-mar.
Como outrora, as velas são içadas, a embarcação se prepara para seguir rumo a novos horizontes, a marola do mar se encarrega de fazer a parte que lhe cabe, e assim, levando na bagagem mais experiência, confiança e profissionalismo, o marinheiro fica a admirar da proa, o futuro virar passado, e, do presente momento ânsias, um futuro de conquistas e prosperidade em outros mares nunca dantes navegados.
Como os incansáveis desbravadores, ambiciono ancorar a embarcação definitivamente a algum porto, e dali contemplar as estratégias traçadas para vencer as tempestades, analisar as batalhas perdidas, e, poder concluir que apesar das dificuldades, valeu a pena todo o esforço a busca pela terra segura e estável, tão penosa de conquistar.

Gilberto Salles Jr

3 comentários:

  1. Meu bem, pra mim esse texto seu ficou mesmo com gosto de sal e lembranças, cheiro de maresia, tons azuis e brancos de beleza e sentimentos vários.
    Um quadro.
    Eu lembrei da música do Caetano, "Os Argonautas": "navegar é preciso, viver não é preciso". Quando ele, apesar dessas palavras, sugere uma necessidade intensa de viver e viver é como navegar.Para um argonauta não há escolha: é preciso!
    Você me arrepia.
    Beijos, amor!

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  2. Ei, querido!
    Cadê as atualizações do blog? :)
    Volte a escrever, adooooooro seu estilo!
    Cada post seu é como ler um livro inteiro numa sentada só!

    Por falar em livros, quando sairá o seu?
    Beijocas,
    Rayanne.
    :)

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